Junqueira Freire

           (1832-1855)

biografia

 

 

 

 

 

 

MARTÍRIO

 

Beijar-te a fronte linda

Beijar-te o aspecto altivo

Beijar-te a tez morena

Beijar-te o rir lascivo

 

Beijar o ar que aspiras

Beijar o pó que pisas

Beijar a voz que soltas

Beijar a luz que visas

 

Sentir teus modos frios,

Sentir tua apatia,

Sentir até répúdio,

Sentir essa ironia,

 

Sentir que me resguardas,

Sentir que me arreceias,

Sentir que me repugnas,

Sentir que até me odeias,

 

Eis a descrença e a crença,

Eis o absinto e a flor,

Eis o amor e o ódio,

Eis o prazer e a dor!

 

Eis o estertor de morte,

Eis o martírio eterno,

Eis o ranger dos dentes,

Eis o penar do inferno!

 

 

 

 

 

 

 

 

SONETO

 

 

Arda de raiva contra mim a intriga,

 

Morra de dor a inveja insaciável;

 

Destile seu veneno detestável

 

A vil calúnia, pérfida inimiga.

 

Una-se todo, em traiçoeira liga,

 

Contra mim só, o mundo miserável.

 

Alimente por mim ódio entranhável

 

O coração da terra que me abriga.

 

Sei rir-me da vaidade dos humanos;

 

Sei desprezar um nome não preciso;

 

Sei insultar uns cálculos insanos.

 

Durmo feliz sobre o suave riso

 

De uns lábios de mulher gentis, ufanos;

 

E o mais que os homens são, desprezo e piso.

 

 

 

 

 

 

 

 

TEMOR

 

 

Ao gozo, ao gozo, amiga. O chão que pisas

 

A cada instante te oferece a cova.

 

Pisemos devagar. Olhe que a terra

 

Não sinta o nosso peso.

 

Deitemo-nos aqui. Abre-me os braços.

 

Escondamo-nos um no seio do outro.

 

Não há de assim nos avistar a morte,

 

Ou morreremos juntos.

 

Não fales muito. Uma palavra basta

 

Murmurada, em segredo, ao pé do ouvido.

 

Nada, nada de voz, - nem um suspiro,

 

Nem um arfar mais forte.

 

Fala-me só com o revolver dos olhos.

 

Tenho-me afeito à inteligência deles.

 

Deixa-me os lábios teus, rubros de encanto.

 

Somente pra os meus beijos.

 

Ao gozo, ao gozo, amiga. O chão que pisas

 

A cada instante te oferece a cova.

 

Pisemos devagar. Olha que a terra

 

Não sinta o nosso peso.

 

 

 

 

 

 

 

 

DESEJO

 

 

(Hora do Delírio)

 

Se além dos mundos esse inferno existe,

 

Essa pátria de horrores,

 

Onde habitam os tétricos tormentos,

 

As inefáveis dores;

 

Se ali se sente o que jamais na vida

 

O desespero inspira:

 

Se o suplício maior, que a mente finge,

 

A mente ali respira;

 

Se é de compacta, de infinita brasa

 

O solo que se pisa:

 

Se é fogo, e fumo, e súlfur, e terrores

 

Tudo que ali se visa;

 

Se ali se goza um gênero inaudito

 

De sensações terríveis;

 

Se ali se encontra esse real de dores

 

Na vida não possíveis;

 

Se é verdade esse quadro que imaginam

 

As seitas dos cristãos;

 

Se esses demônios, anjos maus, ou fúrias,

 

Não são uns erros vãos

 

Eu - que tenho provado neste mundo

 

As sensações possíveis;

 

Que tenho ido da afecção mais terna

 

Às penas mais incríveis;

 

Eu - que tenho pisado o colo altivo

 

De vária e muita dor;

 

Que tenho sempre das batalhas dela

 

Surgido vencedor;

 

Eu - que tenho arrostado imensas mortes,

 

E que pareço eterno;

 

Eu quero de uma vez morrer para sempre,

 

Entrar por fim no inferno!

 

Eu quero ver se encontro ali no abismo

 

Um tormento incrível:

 

- Desses que achá-los nas existência toda

 

Jamais será possível!

 

Eu quero ver se encontro alguns suplícios,

 

Que o coração me domem;

 

Quero lhe ouvir esta palavra incógnita:

 

- "Chora por fim, - que és homem!"

 

Que, de arrostar as dores desta vida,

 

Quase pareço eterno!

 

Estou cansado de vencer o mundo,

 

Quero vencer o inferno!

 

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